No céu cinzento sob o astro mudo

No vídeo abaixo podes ver-me a dizer o poema, apreciar o movimento das letras do mote para formar novas palavras e ler a “simbiose” com calma. Aqui, o som da leitura, para guardar ou oferecer.

O suporte musical deste vídeo (À Proa) é uma das duas faixas instrumentais (a outra é “Tarkovsky”) do último LP de José Afonso, editado em 1985.

Aqui tens uma variante sobre este tema.
Outras variantes no conjunto “Para ti, se és um Plantador da Carência”
no botão “Motes do Autor”.

Os Vampiros

Esta cantiga de Zeca Afonso, de 1963, que inicia o canto político em Portugal,
em tempo de censura, simboliza a resistência contra o fascismo.

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhe franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada